O aborto de uma Au Pair

November 10, 2016

 

O “Segredos de Intercambista” é um espaço criado por Priscila Sanches para que você possa compartilhar a sua história e assim ajudar e alertar outras pessoas! 

 

Para enviar ANONIMAMENTE a sua historia, clique aqui!

 

HISTÓRIA #2 - A HISTORIA DO ABORTO DE UMA AU PAIR

 

"Hoje irei compartilhar uma história que jamais imaginei que compartilharia. A história de um aborto. Essa historia vai ser longa. Porque é a historia mais marcante da minha vida, e que aconteceu durante meu ano como Au Pair. 

 

Eu costumo dizer que durante meu intercâmbio eu aproveitei muito, beijei todas as bocas - isso inclui homem e mulher - que eu poderia. Eu não tinha limites, ficava com diversos caras toda semana. Alguns eu usava proteção, outros não. Uma verdadeira irresponsabilidade pois além de eu não tomar remédio e correr o risco de engravidar, eu poderia ter adquirido alguma doença grave. E pra ser sincera, eu preferia uma doença do que ter vivido o que eu vivi, e vivo ainda hoje toda vez que me lembro do que passei. 

 

Eu viajei muito durante meu intercâmbio, fiz viagens nacionais e internacionais durante meu ano de Au Pair. Até pra Europa eu fui, e foi lá que tudo aconteceu... no meu segundo dia em Paris, conheci um rapaz lindo, alto, moreno, malhado, perfeito. Esse rapaz tinha um amigo tão lindo quanto ele, o que era perfeito pois eu viajei com uma amiga. Então fizemos dois casais... e passamos o dia juntos em Paris, aquela coisa de filme que qualquer garota sonha em viver... Finalmente trocamos telefone e decidimos nos encontrar mais tarde em alguma balada. 

Eu estava tão empolgada, afinal eu nunca tinha ficado com um francês, seria minha primeira experiência... eu e minha amiga fomos às compras e eu comprei o vestido mais provocativo que encontrei. 

 

Chegamos na balada, ele foi perfeito, um verdadeiro cavalheiro, educado, gentil e eu me lembro de por alguns instantes ter pensado que ele poderia ser o cara certo pra mim... eu acho que isso passa pela cabeça de qualquer mulher que se depara com um "príncipe encantado" desses. Depois de muitos drinks, minha amiga foi pro hotel com o amigo do meu par, e eu e ele fomos para o hotel dele. Chegando lá, eu já estava completamente bêbada, mas eu jamais culparia a bebida pelo que me aconteceu. O que me deixa mais triste é lembrar de toda a minha irresponsabilidade.... talvez se eu tivesse bebido mais eu teria esse direito. Mas não, eu fui imbecil mesmo. Ele não tinha camisinha, e, acredito que como a maioria, pensei: "ah, só uma vez, nem vai acontecer nada". E transamos. Transamos a noite inteira, foi lindo, foi romântico, foi sexy. Foi perfeito. Como eu já tinha esse costume de transar com caras que eu mal conhecia, tentei não me iludir, no outro dia voltei pro meu hotel e continuei com minha viagem. Eu me lembro de ter contado o que aconteceu pra minha amiga, e falei que estava pensando em tomar uma pílula do dia seguinte "só pra garantir", mas minha amiga disse “ah se engravidar você faz aborto”, rimos. Até parece que eu ia engravidar… 

 

Inesperadamente, 2 dias depois recebi uma mensagem do mesmo rapaz se declarando e dizendo que queria me ver de novo! Fiquei surpresa e feliz. E foi assim, vi ele apenas mais uma vez no dia em que eu iria retornar para os EUA. Não transamos, tivemos um jantar romântico juntos e foi incrível. 

Voltei pros EUA, vida que segue... Continuamos trocando mensagens e ele, acreditem ou não, comprou uma passagem para vir me visitar duas semanas depois. 

 

Detalhe: Eu já estava grávida mas não sabia.

 

Como dizem por ai “Karma is a bitch”, digo isso por ter rido da situação e ter achado que isso jamais aconteceria comigo. Mas voltando… Eu achei o máximo ele ter vindo, fiquei me sentido extremamente importante, e dessa vez eu realmente acreditei que talvez isso pudesse se tornar um relacionamento de verdade. Ele ficou comigo por 5 dias.... foi sensacional. Os dias passaram e ele precisava voltar para França, mas lógico, mantivemos contato e ele dizia que logo viria me visitar novamente. 

 

Eu tenho certeza absoluta que quando eu engravidar novamente eu vou saber... Porque exatamente no dia ele ele retornou pra Franca eu comecei a ter vários sintomas: o bico do meu peito dolorido, uma canseira fora do normal, muita dor de cabeça, enjoo, muito sono... Todos os sintomas possíveis. Demorou pra minha ficha cair... eu não lembro exatamente da ordem dos fatos, mas entre enjoos e dúvidas, eu que nunca fui ligada em contar os dias da minha menstruação, resolvi tentar. Contei os dias, e olhei no calendário de fertilidade e baseado nisso, vi que o dia que transamos pela primeira vez teria sido o meu único dia fértil daquele mês. E eu só sabia das datas que vieram a minha menstruação no mês anterior, pq estava morrendo de medo de estar menstruada durante a viagem. Ok, respira... "você deve estar atrasada pq está pensando nisso, logo vai descer". E eu esperei... esperei, esperei.... foram 11 dias na tortura, até que me rendi e fiz um teste de gravidez. 

 

Eu sinceramente naquele momento senti uma alegria, mas também uma tristeza pela nossa situação... como será que ele vai reagir? Como meus pais vão reagir? Como vou cuidar dessa criança? Essa criança? MINHA CRIANÇA! Tem uma criança crescendo dentro de mim… E então eu chorei. Chorei…Ate que finalmente tomei coragem e mandei msg.... "Precisamos conversar”, ele não respondeu. Esperei o dia inteiro angustiada, cuidando das crianças do meu host, e imaginando como seria a minha… E ele, nada… Finalmente cansei de esperar e mandei uma mensagem, com a foto do teste e desabafei, disse que estava desesperada, que eu não tinha ninguém no Brasil. Ele apenas respondeu “I can’t have a child now (não posso ter um filho agora)”. 

 

Se tem uma memória forte que eu tenho daquele ano, são essas… Minha imagem chorando. Mas e agora? Claramente eu estava sozinha nessa… Conto pra minha família no Brasil ou não? Meus pais que são extremamente religiosos jamais me aceitariam de volta com uma situação dessa. Eu não tinha ninguém, alem desse rapaz, que eu havia conhecido à menos de um mês atras, e que claramente não queria ter esse filho. 

 

Tentei diversas vezes conversas com o pai, sem sucesso… No começo ele ainda respondia, mas depois de um tempo bloqueou meu numero e nunca mais entrou em contato. Eu estava literalmente sozinha nessa.

 

Faltavam 2 meses pro meu ano de Au Pair acabar, eu não tinha nada nem ninguém no Brasil que poderia me dar suporte, eu comecei a pensar não por mim… Mas por essa criança. Qual o futuro que ela teria me tendo como mãe? Contei pra amiga que viajou comigo, que também não acreditou. Comecei a ler tudo sobre aborto na internet, se a criança sentiria dor ou não, experiências de mulheres … Se elas se arrependeram ou não. As consequências, tudo. Achei o site do Planned Parenthood, que explicava todo o processo e etc…  Foi uma semana entre “vou ter essa criança” “melhor não” “Mas eu vou me arrepender” “mas ele vai sofrer” “mas eu poderia dar pra adoção” “mas eu não tenho como me sustentar sozinha e gravida por 9 meses”… Meu tempo estava correndo e logo era hora de voltar ao Brasil, onde aborto é ilegal. 

 

Depois de pensar em todas as possibilidades, eu finalmente tomei coragem de ligar para o Planned Parenthood… Eu achei que seria tudo simples e rápido, eu iria ate a clinica, pedia o aborto e pronto. Marquei o horário e fui. 

Cheguei la, conversei com a recepcionista que me direcionou a uma orientadora…. Eu fiquei impressionada como NINGUÉM naquela clinica me julgou, ninguém olhou pra mim diferente. Eu com medo da minha host family ficar sabendo, não levei meu passaporte, e disse que estava como turista, que trabalhava “under the tabble” pra uma família. Essa mulher, que era indiana, pegou na minha mão e disse… “Eu entendo sua situação, meus pais vieram da índia da mesma maneira que você veio, procurando oportunidades melhores pra nossa família, não se preocupe, nos vamos te ajudar”. Todas os profissionais que eu tive que conversar antes de tomar a decisão FINAL respeitaram meu corpo, e a minha decisão, mas ao contrario do que eu pensava, não seria tão simples assim. Eles me deram um envelope desses grandes de curriculum onde eu iria assinar que recebi esse documento, e apenas depois de aproximadamente 20 dias em posse destes documentos eu poderia marcar o meu aborto, caso ainda persistisse com a ideia. Ao contrario do que eu pensava… Eles realmente te orientam e dão opções. 

 

Nessa pasta eu tinha todas as informações sobre o tamanho do bebe, em diferentes estágios, se ele sentiria dor ou não, se seria rápido ou não, se seria eficaz.. O que eles fariam caso o bebe nascesse “vivo”, os tipos de aborto, as consequências de cada um, telefones de diversas casas de adoção, e finalmente, métodos contraceptivos, que seriam “doados” para mim após o aborto, dependendo da minha situação financeira. Eu poderia escolher entre pílula, injeção, DIU, todo e qualquer método que eu me sentisse mais confortável. Eu realmente estava impressionada com a seriedade e  “non-judgemental” orientação. 

 

Marquei a data, e fui. Cheguei la, na frente da clinica tinham pessoas com placas e gritando “Não aborte, você vai pro inferno” “não é uma célula é um bebe”, etc. Foi muito difícil sair do carro e caminhar ate a clinica… Mas eu fui. O valor total do procedimento seria de 390U$, paguei na recepção e logo fui chamada por uma enfermeira para conversar sobre o que eu deveria esperar daquele dia, o que a maioria das mulheres relatam sentir, etc.. Decidir meu método contraceptivo, eu escolhi o DIU, que seria colocado no momento do aborto, e sem custo algum. Logo em seguida ela tirou meu sangue, chegou minha pressão, e pediu para fazer xixi num copinho para fazer os exames de DST. Depois fui levada para outro quarto, onde tirei minhas roupas e deixei meus pertences.. E em seguida fui para um outro quarto onde fiz uma ultra-som para ver o tempo do bebe, o tamanho, etc… E ai, veio a parte que me chocou. Eu estava na verdade, gravida de GÊMEOS. Eu fiquei extremamente assustada, mas eu ja havia tomado a decisão… Eu ja havia pensado em todas as consequências, e infelizmente o fato de ser gêmeos só me fez ter mais certeza de que eu não estava preparada para isso. A enfermeira me perguntou se eu gostaria de ver a ultrassom e eu disse que não… Eu não queria ter aquela memória. Mas 1 min depois, mudei de ideia… e pedi pra ver. E la estavam eles, dois pontinhos menor do que um arroz… que dor. Como eu queria que eles tivessem vindo em outras circunstancias … Ela perguntou se eu queria a foto, eu disse que não. Eu perguntei a ela se o fato de serem gêmeos aumentaria os riscos, se teria complicações, e ela disse que não… que o procedimento seria o mesmo. Logo depois, duas enfermeiras vieram para me dar os sedativos, e também me deram uma pílula para dor, e outra para me colocar em um estado de “relaxamento profundo”. E então eu esperei… Em seguida o medico que de fato faria meu aborto, veio conversar comigo, perguntou se eu estava realmente certa da minha decisão, me explicou novamente dos riscos e do procedimento, mas de maneira muito calma e gentil.. Me deu os papeis para assinar autorizando o procedimento, e agora era so esperar. 

 

Passaram mil coisas na minha cabeça nesse momento… Eu me lembro de conversar com “meus filhos” e explicar o porque de eu estar fazendo isso, pedi desculpas um milhão de vezes, chorei um pouquinho mais… Foi de fato o dia mais triste da minha vida. Porque ser mãe era um dos meus sonhos também, e eu fiz tudo isso sabendo que havia o risco de eu jamais engravidar novamente… Lembro desse momento e ainda choro. 

 

Então chegou a minha vez… Fui levada para a sala de cirurgia, chegando la a enfermeira pediu para eu deitar na maca, que logo o medico viria e começaríamos o procedimento. Então o medico veio, me examinou, e enquanto ele me examinava a enfermeira, que viu meu estado claramente abalada, veio segurar minha mão e conversar comigo… Ela perguntou sobre o Brasil, os lugares que eu gostava mais de frequentar, perguntou onde eu estudei, as coisas que eu gostava de fazer, se eu pretendia voltar… Enquanto conversávamos o medico também ia falando comigo e explicando exatamente o que ele estava fazendo, perguntando se eu sentia dor, etc. E ambos conversando comigo, e tentando me distrair daquele momento que ficaria marcado pra sempre na minha vida… A cor dos óculos da enfermeira, o cheiro daquela sala, a luz refletindo o calendário que marcava o ano de 2013… E que apesar dos sedativos, eu consigo me lembrar, mas eu confesso que não lembro se senti dor ou nao. Alias, eu acho que na minha memória esta confuso se a dor que eu sentia vinha do coração, ou do procedimento… Pronto. Eles se foram… 

 

Logo em seguida, fui levada para uma sala de recuperação, onde tomei soro na veia, e eles me deram uma bolsa com agua morna para colocar encima da região dolorida, e mais um monte de papeis com orientações pos aborto e um numero especial para ligar em caso de um sangramento muito abundante, etc. Uma amiga, a mesma da viagem, veio me buscar pois eu não poderia dirigir naquele estado. Fomos almoçar… E eu só conseguia pensar que eles haviam ido embora.  

 

Eu apesar de ter sentido muito pelas minhas escolhas, não me arrependo, sei que muitas pessoas vão me julgar… Assim como eu mesma ja julguei outras pessoas, e tudo bem… O que importa é que eu sei como eu me sinto em relação a isso, aqui dentro do meu coração, eu sei que os amo. De um jeito estranho mas amo… e onde quer que eles estejam, eu espero que eles, e somente eles, entendam o que fiz. 

 

Eu queria agradecer a Priscila, por ser tão dedicada com nos Au Pairs, buscando sempre expor de maneira verdadeira o que de fato acontece durante um intercâmbio. Eu achei essa ideia dos “segredos de intercambista” simplesmente incrível, e eu espero de coração que as meninas que lerem a minha historia se protejam, que aprendam com os meus erros, pq a dor que eu senti eu não desejo nem para o meu pior inimigo… Uma noite de sexo com um cara que você conhece, NAO VALE a sua saúde, NAO VALE a vida de um filho, NAO VALE o desgaste emocional, NAO VALE NADA. Pense nisso. Eu perdi duas crianças pela minha irresponsabilidade e imaturidade, não cometam o mesmo erro que eu! 

 

Obrigada a todas por lerem ate o final a minha historia, e compartilhe com aquela sua amiga irresponsável. Grande beijo." 

 

 

 

 

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Sobre Mim

Priscila Sanches, aquariana de 27 anos que mora em Montreal, CA.

  • YouTube - Black Circle
  • Facebook - Black Circle
  • Twitter - Black Circle
  • Instagram - Black Circle
Posts Em Destaque

REVIEW SINCERA - Curso de Francês online

March 27, 2019

1/3
Please reload

Posts Recentes

November 25, 2017

Please reload

Instagram
  • YouTube - Black Circle
  • Facebook - Black Circle
  • Twitter - Black Circle
  • Instagram - Black Circle
  • YouTube - Black Circle
  • Google+ Black Round
  • Facebook Black Round
  • Twitter Black Round

© Priscila Sanches

 TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

Para anuncios entre em contato comigo!